O Brasil ostenta uma das matrizes energéticas mais sustentáveis do planeta, contudo, a eficiência técnica colide com a ineficiência regulatória. Atualmente, 88% da nossa geração provém de fontes renováveis, com a combinação eólica-solar atingindo 23,7% da capacidade instalada. Segundo a EPE, o setor fotovoltaico expandiu 39% em 2024, mas esse crescimento encontra agora um teto de vidro: o Marco Legal da GD (Lei 14.300).

A grande controvérsia reside na transição tarifária para sistemas On-Grid. O chamado "Imposto Solar" é, tecnicamente, a cobrança pelo uso da infraestrutura de distribuição (o Fio B). Em 2026, a incidência de 60% sobre os créditos injetados degrada severamente o ROI (Return on Investment). O que antes era um investimento com Payback de 4 anos, agora se estende para 7 ou 8, desestimulando a microgeração distribuída.

"A manutenção do Sol é uma metáfora irônica para o que o mercado chama de subsídio cruzado reverso: o governo taxa a inovação para manter o lucro regulado das concessionárias."

Como investidor de players como Taesa (TAEE11) e Cemig (CMIG4), compreendo a solidez das margens operacionais dessas companhias no segmento de transmissão e distribuição. Elas se beneficiam da infraestrutura centralizada. Contudo, do ponto de vista do desenvolvimento nacional, estamos diante da "Espiral da Morte" das concessionárias: quem possui capital migra para sistemas Off-Grid (isolados com baterias), abandonando a rede pública.

Aqui reside o perigo socioeconômico: ao "desbancarizar" a energia, a rede pública perde seus usuários de maior poder aquisitivo. O custo fixo de manutenção da malha elétrica não diminui; ele é apenas rateado entre os que permanecem. Quem são eles? A classe média baixa e os vulneráveis, que não possuem os R$ 26.000,00 necessários para um sistema básico ou terreno para usinas UFV.

A tese de investimento em fundos como o SNEL11 mostra que a energia solar é ultra-eficiente. Uma usina pequena (0,06 MWp) gera em um único dia o que uma residência média consome em um mês. Se temos a tecnologia, por que não a democratizamos? A resposta é política. Ao taxar o excedente, o governo cria uma dependência artificial.

O cenário para 2026 é cíclico e perverso: o governo aumenta impostos sobre o prosumidor, reduz a atratividade do investimento privado em renováveis e, para compensar a alta da tarifa causada pelo êxodo dos grandes consumidores, cria auxílios e subsídios para o pobre pagar a conta de luz. É a estatização da ineficiência: paga-se o imposto para receber o benefício, enquanto o lucro das concessionárias permanece blindado pelo contrato de concessão.

Precisamos de uma desoneração real e de linhas de crédito que permitam que a energia solar não seja um luxo, mas um utility básico. Se o discurso oficial é de sustentabilidade, a prática tributária deve refletir a urgência da transição energética, e não servir de âncora para modelos de negócios do século passado.